Sobre o caso da demissão no Google e a preguiça do argumento sexista infundado

Eu li essa notícia aqui e tive um misto de sentimentos que queria compartilhar com o mundo. (Por mundo, leia-se o meio daily user deste blog):

Google demite funcionario contra diversidade de genero

O que que aconteceu? Um cara, um engenheiro da Google, mandou um memorando de 10 páginas pros colegas indo contra as políticas de contratação da Google, que incluem ações afirmativas de diversidade (leia-se inclusão de gays, transgêneros, mulheres, negros, enfim todo mundo que não seja branco, classe média, americano privilegiado). No texto ele defendia que as mulheres são menos propensas a trabalhos científicos e mais aptas aos sociais por definições biológicas, e ainda dizia que a empresa não estava seguindo sua própria política de respeitar as opiniões diversificadas ao impor uma monocultura do politicamente correto.

Errrr. Ta.

Pensamento 01: Dá-lhe! Vai mundo! Se a Google tá punindo por conduta sexista, que não tem necessariamente a ver com abusiva, o resto do mundo pode ser que siga o exemplo um dia.

Pensamento 02: Ou pode ser como o Google Wave que ninguém seguiu.

Pensamento 03: Não vai ler os comentários, não vai ler os comentários, não vai ler os comentários. Ai porra, já li um.

Pensamento 04: A HUMANIDADE NÃO DEU CERTO né gente?

Tá, volta pra Google >>

Como eu não sou de me dar por satisfeita na primeira fonte, ainda mais no G1, fui buscar na Bloomberg a matéria original e entender mesmo o que aconteceu:

Google fires author of divisive memo on gendor differences

Não vou nem entrar na análise semiótica dos títulos (Contra X Divisive), que isso rende outro post, mas o que me chamou a atenção ao entender a história e esquecer as escrotices deixadas na caixa de comentários do G1 foi:

Alguém me explica porque raios uma opinião não-fundamentada de um engenheiro sobre questões sociais ainda é ouvida? Porque sim, a coisa toda virou uma das polêmicas mais comentadas em fóruns respeitados como o Hacker News.

“Ah Lívia, mas ele tinha argumentos científicos”.

Tá, vou reformular:

Alguém me explica porque raios uma opinião fundamentada em argumentos biológicos ultrapassados e já comprovadamente não suficientes para provar qualquer diferença genética determinante entre homens e mulheres ainda é aceita e colocada acima de políticas de diversidade e estudos fortemente embasados em anos de pesquisas sociológicas, psicológicas, etnográficas, e etc, com caráter científico e pertencentes às áreas das ciências sociais e humanas?

ATA.

Até quando vamos aceitar o “é a minha opinião” diante de situações que claramente desrespeitam outro ser humano? (Não vou nem mencionar os Direitos Humanos por motivo de ~polêmica~ mas vocês entenderam que é isso mesmo que eu quero dizer).

Até quando “a minha opinião” que passa por cima de conceitos éticos que deveriam basear nosso convívio em sociedade vai se sobrepor à força a argumentos sociológicos/antropológicos?

Até quando homem dizendo “é a minha opinião” vai valer qualquer coisa perto de argumentos de mulheres que fizeram teses de doutorado e pós-doutorado em igualdade de gênero?

Estamos em 2017 e opinião não-fundamentada de homem sobre sexismo ainda é aceita? Gente. Apenas pare.

Ninguém quer que homem morra ou que ganhe menos. Mulher quer ganhar a mesma coisa porque trabalha tanto OU MAIS.

Mulher não tem aptidão natural pra área social e estética. Ela foi treinada para.

Mulher não é menos interessada em ciências. Ela foi desestimulada.

Mulher não ganha menos porque procura trabalhos que paguem menos. Essa eu nem consigo contra-argumentar porque é tão ridícula que chega a ser risível.

MULHER GANHA MENOS PORQUE SIM. Porque ninguém consegue provar porque raios uma mulher no mesmo cargo de um homem dentro de uma empresa, com currículo equivalente, ganha menos.

Mas ganha. Isso acontece. Porque oferecem menos e nós aceitamos.

Porque somos fracas e deveríamos lutar mais pelos nossos direitos? (ahn, dã)

Não, meu filho, porque precisamos trabalhar pra sustentar serumaninhos como você.

Existem milhões de motivos pelos quais uma mulher aceita ganhar menos. Na maioria das vezes, ela nem sabe que ganha menos (vide escândalo recente na BBC com jornalistas que descobriram que ganham menos que os colegas homens).

Mas também tem o maravilhoso caso das chefias que não promovem mulheres aos seus cargos superiores, o que faria com que elas ganhassem mais e assim diminuir a diferença salarial entre gêneros.

“Mas Lívia, cargos de chefia são conquistados com competência e dedicação, e todos na empresa têm a mesma oportunidade”.

ATA [2]

Vou contar uma história rápida: uma mulher e um homem, mesma idade, mesma experiência, mesma formação, mesmo cargo. Mesma empresa, mas setores diferentes que se fundem. Chefia em aberto. Quem fica com o cargo?

A mulher com um filho e planejando o segundo filho, ou o homem solteiro que responde email às 22h só pra mostrar pro chefe que tá disponível enquanto a colega tá no supermercado com filho e o marido cuidando da sua vida?

É. Mesmas oportunidades, tá bom.

O Google deu um passo e causou imensa polêmica. Infelizmente, não pelo lado que eu achei que veria a polêmica ser criada. Tem muita gente inteligente defendendo o cara demitido. Dizendo que foi censura, que o Google não deixou ele dar a sua opinião.

Migo, se você continua pensando assim: volta 20 casas. Ou 20 parágrafos e encontra o começo do argumento.

Sua opinião não basta.

Sua opinião machista não é argumento, é desrespeito.

Sua opinião não é conservadora, é preconceituosa.

Sua opinião mata. (Ver: Feminicídio)

Até quando?

Por enquanto fica a esperança. Vai Google, vai mundo.

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