Sobre quando a gente espera aquela grande mudança. Sentada, que é pra não cansar.

Enquanto fazia meu almoço (quase) saudável, me peguei pensando:
o que eu quero mesmo da vida?

Espera que eu vou contextualizar melhor, porque ninguém tem esse tipo de epifania enquanto corta peixe.

Há tempos que eu leio e penso sobre comportamento e sempre acaba na mesma moral: aceitação. É aceitação do próprio corpo. Das suas limitações. Da sua realidade.

Enfim, eu não sou melhor do que ninguém, tenho muito ainda pra aprender sobre aceitação. E acho que a principal coisa que tenho que aprender é:
aceitar o medíocre.

Medíocre não no sentido pejorativo da palavra, de ser ruim.
Medíocre de ser médio mesmo.

Eu faço parte daquela geração que todo mundo escreve tanto, dos mini-gênios incompreendidos que andam zoando o mercado de trabalho.
E isso quer dizer que eu faço parte daquela geração que foi criada para ser tudo o que quisesse ser. Que foi criada para ser especial. Para não se contentar com pouco. Para sonhar alto e grande. Para ser feliz todos os dias.
Para domesticar unicórnios e ursinhos carinhosos.

Veja bem. Não estou reclamando e nem culpando meus pais, aqueles baby-boomers que se sacrificaram pra ver a gente não se sacrificar. Mas né, contém ironia.

O lance todo é: eu não fui criada pra ser medíocre.
E isso é muito bom. E muito ruim.

Só pra dar um exemplo rápido: passei um fim de semana chorando copiosamente quando tirei 16 num trabalho do doutorado. 16 aqui em Portugal corresponde a 8. Eu CHOREI por causa de um 8 no DOUTORADO. Não na segunda série. Sério mesmo – e acho que eu preciso voltar pra terapia. Mas enfim, não vem ao caso.

A questão é que é muito difícil se aceitar como mediano. Que você pode ser MUITO bom em uma coisa e simplesmente médio em outra igualmente importante, e seguir vivendo de buenas. Isso inclui vida profissional e pessoal.

Aí eu volto pra epifania do lombo de pescada: o que eu quero mesmo da vida? Ser genial? Dominar o mundo? Ou ser feliz todos os dias? Pagar minhas contas tranquilamente e viajar de vez em quando?

A pergunta parece fácil de responder, mas no dia-a-dia juro que não é.

Primeiro porque ainda não tô pagando as contas tranquilamente (beijo pros boleto), segundo porque na prática a gente continua esperando a grande mudança que vai te fazer dominar o mundo.

Mas gente, qual é a grande mudança? Tô esperando um meteoro cair no Porto e mudar minha vida de cabeça pra baixo?
MAS GENTE, EU ATRAVESSEI UM OCEANO, ME MUDEI PRA PORTUGAL, E AINDA TÔ ESPERANDO A “GRANDE MUDANÇA”.

Quer mais o quê, criatura? Ser nomeada a primeira Papisa?

Entendeu a epifania do peixe? É isso. É a aceitação.
O que eu quero da minha vida? Caraleo, mulher, tá tudo aqui.
A faca e o queijo na mão. No caso, a faca e o peixe. Aceita.

 

PS: originalmente eu terminava o texto com a expressão “Aceita que dói menos”, que eu conheci por uma personagem bem engraçada de uma novela da Globo que eu realmente não lembro o nome.
Aí fui pesquisar e descobri que é uma frase repetida por estupradores no momento do ato, e pah! perdeu toda a graça. Só quis escrever aqui porque eu precisava contar isso pra alguém e me redimir de todas as vezes que eu usei essa frase.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s